terça-feira, 28 de agosto de 2012

Double face



Já é tarde, e o relógio me tortura com seus números. Mas eu preciso, antes de fechar os olhos, preciso disso. Talvez seja o barulho frenético do teclado ou a luz da tela que me faz ter sono. Talvez por isso meus textos mais sinceros sejam escritos nesse horário... mas isso realmente não tem importância alguma. Tão pouco tem importância o que eu digo, o que eu penso ou o que escrevo. Já fui mais interessante. Hoje sou esse amontoado de palavras escritas em um blog ou mais banalmente, sou meus cabelos loiros e olhos pretos.  Passei a ser o que eu digo, e  fui tão convincente que eu mesma acreditei. Aonde me perdi? Em que vírgula, sujeito ou ponto final eu deixei de existir?
Quer saber de mim, procure nas entrelinhas, ou melhor, em qualquer lugar menos no sentido exato de minhas palavras. Sempre fui adepta das metáforas e não vejo como ser diferente. Minha convicção aparente e meu tom de voz simulam uma acertividade que eu não possuo e me servem de disfarce. "Você não sabe quem eu sou" repito internamente enquanto olho no fundo dos seus olhos tentando entender porque você ainda está aqui. Se soubesse talvez não ficaria... ou sabe e por isso ainda não foi embora. Então gosto de pensar que está tudo bem, quando na verdade tem uma bagunça enorme aqui dentro que ninguém é capaz de arrumar.
Quem sabe se eu tentar sozinha, primeiramente colocando as coisas nos lugares de onde eu tirei. Quem sabe se eu organizar a bagunça desse furacão que eu mesma provoquei por aqui... só assim talvez eu deixe essa necessidade de escrever, essa mania de falar demais, essa compulsão por tentar me descrever quando na verdade eu já nem sei quem eu sou.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Promisses




Foi em meio a uma caminhada sem destino que parei para observar aquele banco de praça vazio. Todos passavam apressados diante dele, enquanto seguravam seus guarda chuvas e seguiam seus caminhos ignorando detalhes da paisagem.
Eu sentei, não porque costumo sentar em bancos de praça enquanto deixo a chuva escorrer no meu rosto, mas porque eu precisava cumprir uma promessa. Talvez você nem lembre ou mais provavelmente nunca tenha entendido o que, tantas vezes eu quis dizer. Eu repeti no teu ouvido todas as vezes que ficamos em silêncio assim como escrevi em cartas, emails e bilhetinhos enviados durante uma aula; "Como você me dói de vez em quando". Aqui estava a minha promessa. "Eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno bem no meio duma praça...". Então eu chorei, ali sentada enquanto todos fugiam da chuva e eu tentava fugir das promessas que não poderiam mais ser cumpridas. Percebi que talvez você nem lesse Caio Fernando de Abreu ou achasse que minhas palavras eram apenas palavras de uma jovem sonhadora. Deixei que a chuva diluísse minha promessa e carregasse para o solo a tua lembrança. Só assim eu iria deixar de querer te dizer "tanta, mas tanta coisa...".

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Agnes.




O sol entrava pela janela do quarto. Os raios atingiam nossos seios e coxas enquanto ela sorria e acidentalmente, balançava os cabelos Lisos. O sorriso estampado no rosto disfarçando as perguntas que eu insistia em fazer, era simpático e gostoso de ouvir mas era também o anúncio de algo que eu temia que fosse dito.
Ela se levantou e colocou a ponta do pé na minha barriga, com a leveza e habilidade de uma bailarina, enquanto olhava séria e profundamente nos meus olhos:
- Vê aonde você está agora? De baixo do meu pé. É assim que vai ser hoje e sempre, não porque eu escolhi assim ou porque você gosta de ser dominada, mas o destino quer assim.
Ela não sorriu ao final da declaração. Apenas continou a fitar meu rosto com o olhar fixo e uma expressão que evidenciava o quanto ela me conhecia e o quanto se irritava por isso.
- Você não cansa de ser tão simples, tão pura, tão transparente?
- Tão previsível você quer dizer.
- Nao, previsível não, você é inteligente demais para ser previsível. Mas você não se cansa de se mostrar, de se virar do avesso? Você não tem enigmas. Posso dizer que te conheço como a palma da minha mão ou até melhor do que isso.
Engoli minhas palavras. Como sempre ela conseguia com uma única frase bombardear todas as minhas idéias. Só então ela sorria, quando via minhas forças, minhas voz e minha personalidade abafadas pelos furacões que ela provocava pelo simples prazer de me ver perdida. E quando eu me reinventava, resolvia mudar o jogo e me transformar em uma mulher mais forte, mais firme e por vezes até cruel, ela chorava. Chorava como uma menina implorando por um colo seguro. Se desestruturava e gritava amor aos quatro ventos e novamente me tinha de baixo dos seus pés, limpando suas lágrimas, deitando-a no colo e protegendo como se ela realmente fosse indefesa.
Ela mora no meu espelho e em algum lugar bem escondido dentro de mim. Sinto falta dessa inconsequência e dessa coragem que só ela tem de se jogar do mais alto penhasco e sempre se manter no controle da situação. Ao mesmo tempo que sinto por todos aqueles que, um dia, ela fez questão de que estivessem debaixo dos seus pés.