domingo, 28 de outubro de 2012

Escritora.


Gargalhadas soavam. O grupo de amigos parecia se divertir enquanto acumulava garrafas em cima da mesa. Um casal e seus dois filhos se esforçavam para sobreviver a um jantar em família. Um dos meninos usava fones de ouvido e mantinha os olhos fixos no celular enquanto o  outro parecia contar estrelas no teto do restaurante.
Ela observava tudo e todos que ali estavam. Eles passavam a se tornar personagens de histórias que só existiam em sua cabeça. Pensava em como seria bom estar no lugar de um daqueles amigos que se divertia após um dia longo de serviço, ou até mesmo do filho do casal que provavelmente pensava no quanto seus pais eram patéticos de fingirem ainda ser um casal. - Um casal -  ela deixou escapar em voz alta. Pela primeira vez naquela noite ela recebeu um olhar, ouviu um movimento que chegou rompendo com o silêncio da imobilidade em que os dois se encontravam. Chorou baixinho deixando escapar as lágrimas que a tanto tempo estavam sendo trancadas.
Ele começou a falar mas ela não conseguia entender, ou talvez descartasse aquelas palavras  porque não mais importava. O que importava era aquela dor que ela sentia agora e que havia feito com que ela voltasse bruscamente ao mundo real. O que realmente importava era que  havia abandonado a própria felicidade a muito tempo. Era por esse motivo que criava histórias e personagens para onde pudesse fugir e se esconder da dor.
Nos olhos dela lágrimas, nos dele uma mistura de irritação com indiferença. Levantou, pegou a bolsa e saiu pela porta do restaurante. Na cabeça a única ideia que lhe acompanhava era de como seria feliz se ele simplesmente viesse correndo naquele momento. De como iria sorrir e chorar e ser feliz se ele a abraçasse bem forte, e repetisse novamente o quanto eles eram bobos e os dois sorrissem por causa disso.
Estava frio e a chuva molhava a calçada. Ele não foi resgatá-la, e o celular também não tocou. A partir desse dia mais um personagem foi criado. O personagem que nunca teria deixado ela ir embora, o personagem pelo qual ela seria eternamente apaixonada e com quem criava cenas em sua cabeça todos os dias antes de dormir.

As nossas dores.



Eu sei que parece que quando passar vai parar de doer, mas não para. Ver que você teve exito em matar um amor tão intenso também dói, mas é preciso. Esse amor pode ser forte, puro, lindo, único, eterno, se não for correspondido não passa de excesso de bagagem. Então a gente acaba sufocando ele no peito, e junto acaba por sufocar um pouco da gente também. E tudo bem, acordamos mais fortes e livres. Liberdade de se guardar só amores bonitos no peito, de levar com a gente só quem não larga a nossa mão na hora que a gente precisa, de esperar por quem te diga "eu te amo" todos os dias porque você não merece nada menos do que isso. E aí talvez você possa sofrer de novo, porque amar sempre dói.
Então senta aqui comigo e deixa o choro pra depois. A vida passa rápido e a gente tem que ter pressa menina. Se quiser pode ficar em silêncio mas junta a tua dor com a minha. Quem sabe assim a gente não inventa uma pra nós duas.

sábado, 20 de outubro de 2012

Vazia.



Então vai! Some por completo . Me xinga, me odeia, fala do quanto eu sou insegura e de como te irrito quando fico agindo como uma menina assustada. Fala da minha falsa prepotência, da minha falta de limite, do meu tom de voz arrogante. Me deixa de lado e me esquece de uma vez, porque nós duas sabemos que é isso que você tem que fazer.
Mas não, você faz tudo errado. Acha divertido quando eu encho a cara e fico até amanhecer dançando no meio da tua sala. E quando eu te provoco (porque eu sou idiota e arrogante o suficiente pra isso) ao invés de retrucar, você respira, conta até dez e deixa pra lá, depois ainda tira sarro da minha cara me fazendo rir. Quando eu preciso de carinho você me oferece seu colo, quando eu choro na sua frente você me abraça apertado. Tudo errado! Eu quero agir da maneira certa mas você não deixa!
Eu sei que não deveria ter te olhado e muito menos te beijado. Mas o que eu poderia fazer se em meio a tanta gente naquela festa, você é a única com quem eu poderia ficar em silêncio e descansar desse peso que eu carrego. Tudo porque você já não precisa das minhas palavras, é capaz de decifrar o meu silêncio.
Apenas me olha mais uma vez, tão profundamente quanto tantas vezes já te vi me olhar. Vê que sou só metade? E uma metade tão machucada, tão dolorida. Você não, ainda carrega esse sorriso enorme e sincero que te deixa tão bonita.
Não deixa que eu te tire esse sorriso, foge de mim antes que você perceba que eu não tenho absolutamente nada pra te oferecer. Vai embora porque eu sei que se fores agora, levarás contigo apenas a imagem da menina que dançava na tua sala.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Da série "Escritos de gaveta": Texto 2


O cheiro toma conta da casa. Saio para o quintal e vejo em cima do balcão, ao lado do tanque, os corpos jogados. Olhos estalados e sem brilho. Fecho os meus olhos e devagar vou esticando o braço para tocar assim, com a pontinha do dedo. Duro e morno. Corro de volta para dentro de casa, mas o cheiro ainda está lá e isso me angustia. Cheiro de coisa morta já à algum tempo, de pena molhada, de carne podre.
 Ele passa por mim com um sorriso de satisfação e uma faca enorme nas mãos dizendo "Teremos marreco para o almoço!". Perco o apetite.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Da série "Escritos de gaveta": Texto 1.


 É sempre assim, enquanto saboreio meu café e meu cigarro, que aproveito para escrever sobre alguma coisa. Hoje, ainda não sei porque, mas desde o momento em que me levantei da cama você não me saiu da cabeça. Mesmo enquanto eu brincava com o meu cachorro e depois enquanto assistia ao meu filme favorito, era como se você estivesse ali. Lembra das tardes em que simplesmente fugíamos do mundo para nos refugiarmos no sofá da minha sala? E ficávamos ali, assistindo a um filme qualquer abraçadas, em silêncio, tentando sentir nossas respirações.
 Sabe, as vezes você me perguntava "Você está bem acomodada?" e eu respondia que sim, mesmo morrendo de dor no pescoço. É que eu tinha medo de que um movimento fizesse com que seu corpo se afastasse do meu. Como eu era boba por você! Eu fazia as piadas mais idiotas, os comentários mais bobos e depois, morria de vergonha. Você sorria desse jeito gracioso e isso bastava para que eu me sentisse bem novamente. Naquelas tardes enquanto você falava com esse seu jeito engraçado e jogava video-game  sem piscar os olhos eu dizia pra mim mesma que o tempo poderia parar ali e que eu morreria feliz apenas por ter visto a sua expressão.
 Mas eu não morri ali, e o tempo parece que fez questão de correr e eu nem percebi naquela época. A parte trágica de tudo isso é que você nunca foi minha de verdade. As tardes, os dias, tudo tinha hora certa pra acabar. E quando acabava eu chorava, e depois você voltava e eu sorria. Eu fazia força para abrir as mãos e te deixar voar, porque eu nada podia fazer para que você ficasse. E então você ia, levando junto a minha felicidade.
 Um dia você veio após alguns anos de tardes monitoradas pelo relógio e disse que nunca mais ia voltar. Eu não chorei porque simplesmente tinha me acostumado a perder você ao final das nossas tardes. De fato senti uma espécie de alívio, porque eu sabia que quando você fosse embora, levaria o resto de sensibilidade que ainda me restava. Eu não morri em uma daquelas tardes. Você me matou pouco a pouco com cada partida sua, com cada festa que eu frequentava, cada bebida que eu tomava e cada pessoa que eu transava só pra não lembrar de você.
 Você ainda me surge de vez em quando em meio a uma noite de frio ou a um filme assistido sem companhia, mas logo vai embora exatamente como fazia ao final das nossas tardes. Sabe... as vezes eu choro um pouquinho sim, só por não ter morrido em uma tarde de frio enquanto pousava a cabeça no teu peito. Assim, ao menos uma vez eu não precisaria te ver ir embora.