segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Da série "Escritos de gaveta": Texto 1.


 É sempre assim, enquanto saboreio meu café e meu cigarro, que aproveito para escrever sobre alguma coisa. Hoje, ainda não sei porque, mas desde o momento em que me levantei da cama você não me saiu da cabeça. Mesmo enquanto eu brincava com o meu cachorro e depois enquanto assistia ao meu filme favorito, era como se você estivesse ali. Lembra das tardes em que simplesmente fugíamos do mundo para nos refugiarmos no sofá da minha sala? E ficávamos ali, assistindo a um filme qualquer abraçadas, em silêncio, tentando sentir nossas respirações.
 Sabe, as vezes você me perguntava "Você está bem acomodada?" e eu respondia que sim, mesmo morrendo de dor no pescoço. É que eu tinha medo de que um movimento fizesse com que seu corpo se afastasse do meu. Como eu era boba por você! Eu fazia as piadas mais idiotas, os comentários mais bobos e depois, morria de vergonha. Você sorria desse jeito gracioso e isso bastava para que eu me sentisse bem novamente. Naquelas tardes enquanto você falava com esse seu jeito engraçado e jogava video-game  sem piscar os olhos eu dizia pra mim mesma que o tempo poderia parar ali e que eu morreria feliz apenas por ter visto a sua expressão.
 Mas eu não morri ali, e o tempo parece que fez questão de correr e eu nem percebi naquela época. A parte trágica de tudo isso é que você nunca foi minha de verdade. As tardes, os dias, tudo tinha hora certa pra acabar. E quando acabava eu chorava, e depois você voltava e eu sorria. Eu fazia força para abrir as mãos e te deixar voar, porque eu nada podia fazer para que você ficasse. E então você ia, levando junto a minha felicidade.
 Um dia você veio após alguns anos de tardes monitoradas pelo relógio e disse que nunca mais ia voltar. Eu não chorei porque simplesmente tinha me acostumado a perder você ao final das nossas tardes. De fato senti uma espécie de alívio, porque eu sabia que quando você fosse embora, levaria o resto de sensibilidade que ainda me restava. Eu não morri em uma daquelas tardes. Você me matou pouco a pouco com cada partida sua, com cada festa que eu frequentava, cada bebida que eu tomava e cada pessoa que eu transava só pra não lembrar de você.
 Você ainda me surge de vez em quando em meio a uma noite de frio ou a um filme assistido sem companhia, mas logo vai embora exatamente como fazia ao final das nossas tardes. Sabe... as vezes eu choro um pouquinho sim, só por não ter morrido em uma tarde de frio enquanto pousava a cabeça no teu peito. Assim, ao menos uma vez eu não precisaria te ver ir embora.

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