quinta-feira, 28 de março de 2013

Sunday




Naquele domingo preguiçoso e cheio de sol, sentada na cama como se precisasse me dizer alguma coisa, ela me olhou diferente. As mãos pequenas arrumavam os cabelos e o pescoço fino sempre me fez observá-la como quem admira uma boneca de porcelana; linda e frágil. Estranhamente ela não disse nada, nem uma palavra. 
Trouxe da cozinha seu chá e como de costume, o meu café. Sentamos na cama afastadas uma da outra como se da noite para o dia, tivesse se erguido um muro entre nós. Nunca mais nos encontramos e também nunca chorei por isso. Algumas vezes aquele domingo invade os meus pensamentos e trás a tona uma dúvida: o que ela teria a dizer sobre aquela manhã, assim despretensiosamente em um blog qualquer?

domingo, 24 de março de 2013

Perdas.




Olhava o travesseiro ao acordar e o encontrava cheio de fios.  Assim começavam todos os dias contabilizando as perdas; os fios de cabelo, um amor que foi embora, a jaqueta favorita esquecida no vagão do metrô, o anel de 15 anos e um milhão de outras coisas.
A cada perda ela mudava um pouquinho. As vezes era só o cabelo, um corte diferente ou uma mecha de outra cor. Outras vezes essa mudança era muito mais profunda e visível apenas para quem ousasse lhe encarar os olhos. O sorriso foi diminuindo, o café ficando mais amargo e os planos mais silenciosos. Foi parando de escrever, de chorar e de sonhar antes de dormir. Foi perdendo as cores e quando percebeu, já nem sabia falar de amor.