domingo, 21 de abril de 2013

Menos que uma vida.


E aí chega a hora de tomar uma decisão que ultrapasse as fronteiras que me protegem da realidade. Não tenho pressa mas tenho medo. E como poderia ser diferente? Se o mundo é grande meus sonhos são ainda maiores. Sempre pensei que uma vida não seria suficiente para viver o que sonho, e talvez não seja mesmo. Agora me vejo nascendo de novo e pedindo a deus por mais tempo, mais coragem, mais certeza, mais força. Então eu tomo mais um gole de chá e sinto como se as paredes estivessem cada vez mais perto, me forçando a fazer um movimento brusco de libertação. O relógio avisa, a cada tic e tac, que não vai me esperar e o frio me lembra que mesmo sozinha estou aquecida. Eu continuo olhando pela janela, apertada pelas paredes,aquecida pelo chá e ignorando o relógio. Daqui a vida é mais segura, mas aqui uma vida é até demais.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Escombros


Abriu os olhos e percebeu que o sol já havia se despedido. O silêncio das ruas era quebrado pelos carros que passavam provavelmente traçando o caminho de volta pra casa onde, ao final do dia, encontrariam suas esposas, filhos, família, cachorro. Ela chorou ao sentir o silêncio da casa e as cores fracas de um abajur velho ligado em um canto do quarto. Nem um novo som, nem uma nova esperança. Mais uma vez acontecia o insuportável encontro entre sua fragilidade e as lembranças felizes que agora nada mais eram do que fardos pesados demais para carregar. Fechou os olhos novamente, embalada pelas lágrimas e pelo frio daquela noite de inverno. Sonhou com sorrisos abertos e abraços apertados e quando acordou, tentou pensar que aquele haveria de ser um novo dia.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Carmen



Interessante e suave como uma típica sagitariana. E eu com não mais que nove anos de idade e um cabelo loiro que se estendia em fios lisos até a cintura. Não lembro quando começou, mas lembro exatamente a sensação de vê-la pelo reflexo do espelho sorrindo enquanto penteava os meus cabelos. Depois de um tempo eu costumava surgir na porta do quarto dela com uma escova em mãos, enquanto as borboletas pareciam criar um tornado na minha barriga. Ela tentava conter o riso e entendia o recado sem que eu precisasse pronunciar nenhuma palavra. Era uma espécie de código que acabamos criando.
Naquele momento conversávamos sobre tudo, como se ela tivesse nove anos, ou eu trinta e dois, ou nós um meio termo entre isso. Um dia minha família precisou se mudar e eu nunca mais vi seu reflexo no espelho. As vezes percebo que procuro vestígios dela em cada sorriso deboxado e unhas vermelhas.