sábado, 27 de julho de 2013

Pequenos Danos



Vivia sozinha a muito tempo. Aos 75 o resto do mundo lhe parecia ainda mais superficial do que quando era apenas uma universitária e gozava de seus 20 e poucos anos. Alguns amigos morreram, outros a vida se encarregou de afastar e Sara contava apenas com as boas lembranças de seu marido falecido e da companhia de Félix, seu persa silencioso.
O fato é que não havia tristeza. Sara era feliz acordando as 7:15 da manhã. Costumava tomar um banho que durava em média 20 minutos e as 7:50 já tomava seu café enquanto lia o jornal com as notícias do dia. Depois era a vez de dar comida ao Félix, regar as plantas, arrumar milimetricamente a casa, fazer almoço, tirar uma soneca, escutar Carlos Gardel e ler um livro. Assim, depois de uma rotina diária imutável, Sara deitava a cabeça no travesseiro e rezava para que os sonhos lhe trouxessem velhas lembranças de volta. Assim eram todos os dias a mais de 10 anos.
Eram exatamente 9:27 da manhã quando a campainha tocou. A velha senhora de cabelos brancos e amarelados chegou a tontear tamanho o susto. Félix levantou as orelhas e pareceu também ter se assustado. Nenhum dos dois se moveu por alguns segundos na expectativa de decifrar o que estava acontecendo. Ao olhar pela janela, Sara percebe que um senhor idoso se apóia em sua bengala enquanto coloca algo por debaixo da porta. Era um bilhete onde estava escrito: "Durante anos eu te procurei, durante anos esperei que o destino nos juntasse novamente. Não quero lhe encomodar, volto amanhã nesse mesmo horário. Assinado: J.T"
Estranhamente Sara não lembrava de nenhum amigo, parente ou antigo namorado que se chamasse J.T. Mas a idéia de que alguém ainda se importava com sua existência  fez com que, naquele dia, Félix ficasse sem almoço e o cd do Carlos Gardel fosse substituido por um da Roberta Miranda. Foi dormir mais tarde que o costumeiro, esqueceu de pedir a deus pelos sonhos bons e sorriu antes de cair no sono.
Félix parecia ter recuparedo a voz, miava estridentemente se enrroscando nas pernas da dona que após um banho demorado, cantarolava canções de amor e passava batom nos lábios finos. O cheiro de naftalina habitual do quarto deu lugar ao cheiro de lavanda e até as cortinas foram arredadas para que o sol pudesse invadir o quarto.
A manhã passou e a campainha não tocou sequer uma vez. Sara se posicionou ao lado da janela que dava para a frente do apartamento e ali ficou até que o sol deu lugar para a lua no céu e suas esperanças foram trocadas pela dor da decepção.
O que contam os vizinhos é que ela foi vista mais alguns dias na janela nos mesmos horários e pouco depois, foi encontrada morta deitada em sua cama com a companhia de Félix no bidê ao seu lado. Ninguém sabe quem seria ou o que teria acontecido ao velho senhor. Talvez também tenha falecido ou percebido tardiamente que havia errado o endereço. Sei que ele provavelmente não faça idéia da gravidade de sua atitude aparentemente inofensiva.