sexta-feira, 21 de março de 2014

Dona Aida


Eu prometi que quando crescesse escreveria um livro sobre ela; "Promete mesmo? A vó se sentiria lisonjeada!". Mas nós duas não contávamos com a minha falta de talento na escrita. Eu também não pude perceber na época que aquelas histórias todas não necessariamente seriam parte de um romance bonito.
Não sei quantos irmãos a minha avó tinha, não lembro. Essa é só mais uma das lembranças que o tempo não me permitiu guardar, e as poucas que me sobraram são confusas e não completam o quebra cabeças que se tornou a história dela pra mim.
Todos os dias, perto da hora do pai chegar, os irmãos se reuniam na porta de casa. Assim que o homem dobrava a esquina todos corriam ao seu encontro. Quem o alcançasse primeiro era presenteado com doces e carregado no colo. A minha avó nunca ganhava doces, nem era carregada. No caminho entre a casa e a esquina havia um buraco onde, segundo seus irmãos, viviam monstros terríveis. Então ela detalhava a sensação de querer ir ao encontro do pai e muito mais do que ganhar doces, poder ser carregada por ele até a porta de casa. Enquanto meu irmão e minha prima sorriam a cada vez que a história era contada eu ficava triste pela minha avó e por todos os abraços que ela nunca recebeu.
Outra história contada por ela e que ainda lembro claramente foi quando minha avó com apenas 9 anos, viu a mãe fechar os olhos pela última vez. Ela tentou contar essa história algumas vezes nos almoços de domingo da família, mas era logo interrompida e desafiada a superar a tristeza de carregar sua própria história. Engolia as lágrimas e fingia ter engolido também a dor mas eu sempre soube que ela nunca esquecia, que aquela lembrança era sua acompanhante desde a infância.
Lembro de vê-la sentada tardes a fio em sua cadeira de balanço, que ficava em frente a uma porta por onde um feixe de sol entrava. Um dia escutei por acaso uma conversa entre ela e o meu pai que parecia confrontá-la por estar sempre ali sentada. Ela, com a voz chorosa e os olhos lacrimejados respondeu "Mas eu sinto muito frio".
Quando ela faleceu eu tinha 11 anos e a minha maior preocupação foi não esquecê-la. No meu entendimento se ela continuasse viva na minha lembrança continuaria viva de alguma forma nesse mundo. Eu tenho poucas lembranças,e todas muito vagas. Dizem que eu tenho os olhos da minha avó mas ninguém ousa comparar a tristeza contida neles. Eu nunca perguntei pro meu pai se ela era assim, dessa forma como eu lembro. Ele evita um pouco falar no assunto, sei que sente muita saudade e essa é uma forma de continuar a vida. Eu entendo, desconverso, mas nunca escrevo sobre ela porque tenho medo de ter confundido nossas tristezas. É que hoje eu sonhei e quando acordei lembrei que eu já esqueci por tempo demais. O esquecimento as vezes trás saudade.

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