terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O Apartamento



A luz do dia invadia o apartamento pelas frestas da persiana da sala. Sempre achei frio lá dentro mas não lembro de reclamar disso muitas vezes. Uma xícara de café quente ou um copo com alguma bebida forte sempre ocupava uma das minhas mãos enquanto a outra ostentava um cigarro.
Devo ter andado por alguma espécie de labirinto porque todos os caminhos me levavam de volta pra lá. Uma desculpa diferente para cada retorno mas o mesmo motivo para voltar. De muitas coisas que já me intrigaram aquela era uma delas; o lugar, a pessoa. Não gosto de mistérios, odeio gente que se esconde atrás de meias verdades, omissões e qualquer tipo de mentira por mais inocente que ela possa parecer.
Nada ali era falso e eu talvez jamais consiga explicar a minha certeza a esse respeito. A cor do sofá, a desorganização da cozinha, o descanso de copos em cima da estante da tv, os poucos móveis no quarto; tão pouco a dizer, mas sempre havia algo sendo dito.
Estava tudo bem enquanto o sol não surgisse pelas frestas. O escuro parecia combinar bem com a musica tocando ao fundo e o som das nossas conversas incessantes. Talvez tenha a ver com o fato de eu detestar o amanhecer e tudo o que ele representa ou quem sabe eu só quisesse uma companhia, alguém pra saber que o escuro fazia parte de mim e que eu quase não podia existir fora dele.
Ela me roubou muitos sorrisos e eu devolvi algumas lágrimas. Queria ter deixado outras impressões naquele lugar mas pra isso eu teria que optar entre me virar do avesso e deixar uma lembrança mais suave. Escolhi a primeira, a mais difícil mas com certeza a mais sincera. Lá eu não poderia ser nada menos do que eu mesma; confusa, bêbada, crítica, ácida, triste. Não lembro de ter sido tão "eu" outras vezes.

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